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Afetuar - Além das palavras



O dia era muito importante. Faríamos uma reunião para alinhar as propostas de atendimento em uma instituição que dá suporte ao tratamento de crianças e adolescentes com doenças graves.


Erámos três pessoas e estávamos caminhando no 4º andar do prédio.


Entremeados nas conversas sobre o futuro dos atendimentos e as atividades do local, um som de choro preencheu o corredor, nossos ouvidos e, muito mais, os corações.


Quem está chorando? Perguntei.


Andando um pouco mais, um menino de 3 anos próximo à porta se inundava em lágrimas.


As conversas e os projetos cessaram, e nos aproximamos, perguntando o que havia acontecido.


Repetimos várias vezes indagações sobre qual seria o motivo do choro para ele.


O choro aumentava, soluços, tremedeira.


Nós nos ajoelhamos e, ficando do tamanho dele, voltamos a tentar uma resposta.


A linguagem que aprendemos desde cedo é a das palavras ditas, a fala aberta que busca a razão das coisas. Todavia, naquele dia, essa fórmula não surtiu qualquer resultado. E quanto mais a buscávamos, mais ineficaz ela se mostrava.


O choro ficou mais alto e a nossa dificuldade também.


Ninguém próximo para nos socorrer e informar o porquê que tanto precisávamos, numa rota de soluções que havíamos traçado e usado com eficiência em diversos outros contextos na vida.


As nossas perguntas não acolhiam aquela frágil criança. Ao contrário, tornavam as lágrimas mais apressadas e o silêncio da necessidade de ajuda maior.


Tudo tão rápido e tão imenso para todos nós!


Nessa ausência total de efetiva comunicação, cessamos a voz.


Uma de nós abriu os braços e aconchegou aquele pequeno menino que sumiu naquele espaço, aninhando-se inteiro naquela proteção.


O afeto foi nos entremeando; ocupou o 4º andar.


O choro foi diminuindo... diminuindo... diminuindo.


Naquele espaço-abraço cabia o mundo de possibilidades comunicativas e tão eficazes para amainar a dor daquele nosso pequeno interlocutor.


A calma se fez e ele até sorriu.


Sabe, gente, foi esse menino quem me ensinou que dizer menos pode ser afetuar mais.



Cynthia Alvim é mineira de Belo Horizonte. Formada em Filosofia e Direito, com especialização de Direito da Saúde. Há três anos fez formação em assistência espiritual nos Cuidados Paliativos. Desde então, encontrou pessoas maravilhosas, que lidam com o seu adoecimento e outras que são envolvidas no cuidar. Ouviu histórias e silêncios. Nesta coluna da Escola da Empatia vamos poder conversar muito sobre isso.

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