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Mais que amizade: amizade social

Projeto construído pelo psicólogo João Fontenelle, do Núcleo de Acolhimento Educacional de Minas Gerais (NAE).
Construindo Amizades: Projeto construído pelo psicólogo João Fontenelle, do Núcleo de Acolhimento Educacional de Minas Gerais (NAE).

A amizade é uma importante fonte de felicidade e bem estar, porque proporciona às pessoas o suporte social, o compartilhamento de experiências, interesses e sentimentos. Além disso, a amizade é uma experiência de aprendizado vital, complementando o desenvolvimento de habilidades sociais após a família, desde a infância até a velhice.


Em uma sociedade que enfrenta um significativo afastamento social, agravado pela pandemia, é fundamental discutir a importância da amizade. Este texto propõe uma reflexão não apenas sobre a amizade em si, mas também sobre a Amizade Social, tema escolhido pelo Papa Francisco para a Campanha de Fraternidade da Igreja Católica de 2024.


O objetivo aqui não é a abordagem no campo religioso, mas sim de provocar o pensamento no sentido humanitário sobre Amizade e Amizade Social. Você sabe quais são as diferenças desses dois termos?


Se a amizade é uma fonte de pertencimento e aprendizado socioemocional, a amizade social propõe o resgate da fraternidade perante os males que ameaçam a paz em todo o mundo.


Segundo o Papa Francisco, a Amizade Social é um sentimento de amor aberto, que ultrapassa as barreiras geográficas e as condições sociais das pessoas. Um valor que pode ser construído e que nos convida a considerar para além das questões que nos afetam interiormente, mas abrangendo as questões sociais e sistêmicas de nossa sociedade.

 


Podemos pensar que a autêntica experiência de Amizade tem a sua origem no Amor.


O amor fraterno, origem da amizade, difere do amor romântico. Enquanto este último muitas vezes surge da idealização do outro, o amor fraterno se constrói através da convivência e da aceitação das diferenças.


Ninguém deve ou deveria deixar de ser quem é para ser amigo de alguém.


Existem muitas coisas que temos em comum com nossos amigos: podemos gostar das mesmas músicas, vestir roupas parecidas, gostar de ir aos mesmos lugares, mas essas são conexões superficiais e que podem acabar com o tempo. Amizades duradouras são aquelas se fortalecem devido a conexões mais essenciais. Pessoas que tem valores comuns e que se fortalecem espiritualmente tem amizades mais duradouras.


Desta forma, abrangendo o termo da Amizade Social, podemos dizer que ela se vincula a fraternidade, sentimento de solidariedade, empatia e respeito com todas as pessoas.


Desde as crianças, adolescentes, até os adultos e idosos, precisamos fortalecer os vínculos de reciprocidade e tolerância. Ou seja, não adianta obrigarmos uma pessoa a ser amigo de outra pessoa. Mas ensinar-lhe valores e condutas humanas.


Eu pergunto ao meu filho: "Filho, você percebeu se alguma criança esteve sozinha ou sem amigo para brincar no recreio? Você dedicou algum tempo para ajudar um amigo hoje? Alguém ajudou você?"


Se você perguntar a uma criança muito novinha o que é um amigo, talvez ela diga que é alguém que ela gosta, que é alguém que está ao seu lado, alguém que ela gosta de brincar e jogar. Mas devemos ensinar às crianças sobre o valor da reciprocidade para que possam compreender que é muito bom ter um amigo, mas que é essencial saber ser um amigo: ajudar, compreender, doar. A amizade tem a ver com o que recebemos, com certeza. Mas tem muito mais a ver com aquilo que somos capazes de dar.


Se ensinarmos às crianças sobre a reciprocidade, estaremos fortalecendo o valor da amizade social para o futuro. Porque são essas pessoas que serão capazes de dar, de oferecer ajuda, mesmo quando uma pessoa não é capaz de oferecer um retorno muito palpável.

 


Precisamos exercitar a amizade nos vários ambientes em que estamos.


A amizade proporciona harmonia em nossos ambientes.


A amizade nos permite ter ambientes mais verdadeiros, espontâneos e também divertidos. Se com um amigo podemos falar dos nossos sentimentos, precisamos de ter mais amigos no trabalho, na escola, na vizinhança... A amizade transforma lugares muito rígidos em espaços que restauram, que cuidam.

 

Os conceitos de Empatia e Comunicação Não-Violenta estão atrelados à beleza da Amizade Social.


"O vosso amigo é uma resposta as vossas necessidades", disse Khalil Gibran, no livro O profeta.

Através do conceito das necessidades humanas universais, podemos aprender a lidar com os conflitos que existem em todas as relações. Normalmente os conflitos acabam distanciando as pessoas porque elas ficam presas a ideia de que o outro está errado. A ideia de certo e errado está no cerne das nossas inimizades.


A CNV nos encoraja a fazer perguntas que podem nos ajudar a compreender o que realmente motivou a ação de uma pessoa.


Não é fácil manter uma amizade. Precisamos exercitar a empatia, a compreensão constantemente. É mais fácil romper as relações, deixar pra lá, distanciar.


É como ir a academia: escutar, compreender, perdoar, pode ser difícil nas primeiras tentativas, mas com o tempo seremos mais capazes e mais preparados.


 

As reflexões sobre a amizade nos ajudam a combater a intolerância e o desrespeito às diferenças.


A intolerância às diferenças tem em seu cerne o medo. Vivemos em uma sociedade que nos aprova ou desaprova o tempo inteiro, que vive em busca de likes e visualizações. O resultado disso é o medo constante da não aceitação. Quando somos intolerantes com uma pessoa, no fundo estamos temendo que essa diferença seja um impedimento a sua própria existência.


A grande verdade é que são as diferenças que nos permitem sermos existentes! São as diferenças que instaura quem somos. A alteridade, o outro sendo o outro, me permite descobrir quem sou eu e, muitas vezes, essa descoberta se dá no contraste.


Muitas vezes dizemos: "Eu nunca agiria desse modo". Porque há um contraste, há uma diferença que instaura a consciência de como eu agiria em determinada situação.


O cerne do amor está nas diferenças. Se aceitarmos cada um sendo um, não precisaremos excluir, nem violar.


Precisamos ao máximo ampliar nossa consciência sobre as diferenças e envolver esta consciência com o sentimento da fraternidade e da compaixão. Eis aqui um exercício simples para você fazer diariamente, quem sabe ao iniciar ou encerrar o dia.


Inicie este exercício fazendo respirações conscientes: inspirando e expirando em seu próprio ritmo. Segurando o ar pelo tempo que conseguir e soltando o ar devagar. Faça essa respiração por algumas vezes e tente concentrar o ar em seu abdômen, sentindo como ele se move a medida em que você respira.


Após este exercício de respiração, você deve trazer à mente uma pessoa que foi gentil com você e pela qual você é grato. Concentre-se mentalmente na imagem desta pessoa e deseje silenciosamente que ela esteja segura, esteja feliz, esteja saudável, que sua vida seja plena, que prospere.


Então você pensa em si mesmo, e faz os mesmos desejos – que eu esteja segura, que eu esteja saudável, que eu esteja feliz, que minha vida seja plena, que eu prospere. Você faz esses desejos para si mesma, silenciosamente. Então você pensa em pessoas que ama e faz esses desejos para elas. Seja sua família, sejam seus amigos: Que todos estejam seguros, estejam felizes, saudáveis, que suas vidas sejam plenas, que vocês prosperem. Então pense em seus conhecidos, colegas de trabalho, vizinhos, mesmo se algum deles tenha magoado você e faça esses desejos para eles. Faça isso várias vezes e expanda o “ciclo de cuidado” em todas as direções, em toda sua cidade, sua região, pelo mundo todo. Pense nas pessoas mais distantes, de outros países. Todos, em todo lugar, com os mesmos desejos.


A cada dia, você pode criar sua própria prece, desejando o fim de uma guerra ou o fim do sofrimento em um âmbito mais sistêmico, como por exemplo, de pessoas que estão em situação de rua.


Ao ampliar sua consciência e compaixão, você poderá de fato olhar para as pessoas e perceber sua condição; participar mais ativamente de iniciativas sociais e de ações que diminuam a desigualdade.


"Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos." Vinícius de Moraes



Camila Marques

Psicóloga, psicoterapeuta e arteterapeuta. Co-fundadora da Escola de Empatia, aprendiz e cultivadora da Comunicação Não Violenta. Apaixonada por Carl Rogers e Rubem Alves; cursou a Formação em Psicologia Clínica na Abordagem Centrada na Pessoa e a Formação em Plantão Psicológico Centrado na Pessoa no CPH-MG; Designer de Sustentabilidade, formada pelo Gaia Education Belo Horizonte; Certificada em Bem estar, Empatia e Felicidade - PUC-RS. É plantonista no Plantão Psicológico do CPH-Minas e psicóloga da Coopeder/MG.


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