Sobre mulheres, bruxas e reconexão com os ciclos



Olá!


Hoje ofereço este texto que me conecta com profundas reflexões para ir para além das parabenizações no Dia Internacional da Mulher. Vamos ver aqui reflexões sobre:


  • Bruxas e a concepção matriarcal nas primeira civilizações;

  • A concepção patriarcal e a instauração da cultura de dominação;

  • E o resgate à conexão com os ciclos da vida através do feminismo e da CNV.

Aceita o convite de leitura? Então vamos lá =)


A mulher como centro do mundo:


Para falar sobre bruxas e as mulheres nas primeiras civilizações, começo este texto apresentando a polêmica obra do pintor francês Gustave Courbet (1819-1877) chamada A Origem do Mundo. Na pintura, um plano fechado sobre o sexo e o ventre de uma mulher, sem evocação erótica, revelando pura e simplesmente o órgão sexual feminino.


Em 2018, Claude Schopp desvendou acidentalmente o grande mistério de quem era a modelo retratada e lançou o livro “L’origine du monde, vie du modele”. Após 150 anos, foi revelado no livro o rosto de Constance Quéniaux, uma antiga bailarina da Ópera de Paris e, com o lançamento do livro, a obra volta a ser alvo de censuras e críticas.


A censura, o olhar e a crítica para o corpo da mulher é tema que merece reflexões, mas, através desta obra, quero te convidar a uma conversa sobre um tempo em que a mulher ocupava um lugar divino e sagrado, fazendo uma visita à mitologia e algumas perspectivas sobre a história da humanidade apontadas pelo médico, psicanalista junguiano e especialista em mitologia, Bernardo de Gregório.


A história da humanidade é marcada pelo feminino e a capacidade de gerar a vida. A possibilidade da mulher de engravidar, carregar uma criança em seu ventre, dar-lhe a luz e, ainda, ter em seu corpo a sua alimentação (o leite materno), foram marcantes e determinaram o lugar que a mulher assumiu nos primeiros grupos de seres humanos.


Nas sociedades mais primitivas o papel do homem na fecundação era desconhecido e a mulher era a única referência acerca da origem da vida. Isto a colocava no centro da relação com o sagrado. A mulher era deusa, divina e compartilhava com a Grande Mãe Terra a tarefa de criar e sustentar a vida.


Menstruação e a origem das bruxas:


Segundo Bernardo de Gregório, no período pré-histórico, ainda quando não se podia considerar a existência de humanidade, não havia a ideia de homem e mulher. Acerca da mulher, também não havia menstruação. As fêmeas ovulavam, fecundavam e geravam os filhotes.


Sendo a criadora dos filhotes, a mulher tinha o poder sobre a alimentação, a pele dos animais que aqueciam, o poder sobre o fogo e o poder de garantir a existência das próximas gerações.


Os homens tinham poder da força física, que lhe proporcionava a responsabilidade pela caça e atividades braçais. Neste sentido, um precisava do outro, mas devido à capacidade de criação da mulher, a vida estava intimamente ligada aos ciclos do feminino e aos ciclos da natureza. O tempo era demarcado pelo ciclo de reprodução (ovulação e fecundação), do ano (4 estações), do mês (as fases da lua). Não havia a ideia de um tempo retilíneo (passado, presente e futuro) na cultura matriarcal. Esta é uma concepção patriarcal.


O funcionamento de tudo era regido por tradições, não haviam imposições, mas somente o ciclo natural das coisas. As mudanças começam a acontecer, segundo Gregório, através de duas revoluções.


A primeira revolução foi marcada por uma escolha: uma mulher que disse "não" ao ritual de fecundação, que, como dito, não era uma obrigação, mas o natural de ser feito.


A mulher não foi fecundada e 15 dias depois menstruou.


O sangue, naquele tempo, era sinal de doença e morte e a menstruação foi considerada como uma maldição. A mulher foi amaldiçoada por ter rompido com a deusa da terra e foi expulsa da comunidade, condenada a viver na floresta.


As mulheres que, desde então, disseram "não" foram chamadas de bruxas. Por viver na floresta, passou a ser dona de mistérios e sabedorias da natureza; passou a conhecer os segredos da vida e da morte. Também após romper com a deusa terra, as mulheres que disseram não se conectam com a deusa da lua.


Esta primeira revolução, já começa a apontar mudanças: a origem do lugar de escolha.


A revolução masculina e o patriarcado:


Como vimos e como bem conta Bernardo de Gregório, a visão de mundo era uma visão matriarcal. Os homens, que não podiam ter filhos, não tinham o poder e a sabedora acerca da culinária, curas e sobre a pele e o fogo que aqueciam, viram na força uma possibilidade de revolução (2ª revolução).


Prenderam as mulheres e, para tirar-lhes o poder acerca dos filhos e futuras gerações, as mulheres podiam ter somente um homem e, assim, criaram a ideia de pai. Para garantir que o filho era do pai, a mulher deveria casar virgem.


O patriarcado rompe com a conexão com os ciclos e com a natureza ao instaurar as leis, proibições e a ideia de um tempo retilíneo. O passado: era preciso garantir que a mulher era virgem para que também houvesse a garantia da propriedade sobre o filho. O presente: a mulher poderia ter somente um homem. O futuro: a mulher que descumprisse as normas estabelecidas, era punida com a morte. Assim, a ideia de passado, presente e futuro instaura a cultura de punição.


Punição, patriarcado e feminismo:


Desde o rompimento com o matriarcado, as sociedades vivem as consequências de uma cultura de dominação. A desconexão com a natureza, o paradigma da conquista, a ideia de posse e poder desde então estabelecem o lugar da hierarquia e submissão. A consequência: uma grande involução cultural.


As religiões matriarcais passaram a ser segregadas e fundando desde então a ideia da existência de um único Deus.


O patriarcado instaura a intolerância à diversidade, às diferentes formas de existência. Instaura a ideia do certo e do errado e o lugar da desobediência.


Desde a origem das bruxas, a liberdade de escolha e a oposição ao patriarcado ocupou lugar da marginalidade. A busca pela liberdade da mulher instaura atos feministas e ainda hoje são vistos por muitos como atos de rebeldia e, até mesmo, "mimimi".


A queima simbólica dos sutiãs, a luta pela descriminalização do aborto, o manifesto ao feminicídio, machismo e violência, são algumas das buscas por liberdade e respeito feita pelas mulheres.


A CNV, a defesa da vida e o resgate do feminino:


Como a Comunicação Não Violenta se relaciona com a busca pela defesa da vida e o resgate do feminino? Para mim, através da conexão com os ciclos.


Se olharmos através de um prisma patriarcal, a CNV pode se resumir aos quatro passos e, facilmente, ser instrumento de dominação - por exemplo, sendo um recurso para convencer pessoas. Contudo, se olharmos para a CNV com a concepção cíclica, vamos perceber que ela não diz respeito aos quatro passos, mas sim, diz respeito à conexão com a vida.


Conectar-se com o organismo e com o fluxo de dar e receber, para mim é uma forma de transformação cultural e mudança de paradigma: da dominação, da cultura retributiva, da punição e recompensa, para a conexão com a complexidade que é olhar pela ótica das necessidades humanas.


A compreensão de que a observação não ocupa o lugar de primeiro passo, mas sim com a ideia de que estamos em constante conexão com o nosso entorno. Recebemos estímulos, somos afetados pelos comportamentos de outras pessoas, assim como também afetamos o que nos cerca.


A compreensão de que o sentimento não é simplesmente o segundo passo, mas a própria natureza humana de significar o modo como nosso organismo é afetado pelo mundo.


A compreensão de que o terceiro e quarto passo, na verdade, dizem respeito à constante busca pela manutenção da vida através dos pedidos, dos recursos que podem atender nossas necessidades.


Comunicar-se em uma concepção cíclica é um modo de se conectar com o próprio organismo e com a natureza, percebendo de que forma as nossas escolhas e comportamentos impedem ou facilitam o fluxo da vida. Isto transpõe à ideia simplista de punir e recompensar a quem obedece ou não à cultura dominante e oferece a possibilidade de investigar como é considerar a complexidade, a diversidade de escolhas e ações, encontrando a harmonia através do diálogo.


Eu celebro a possibilidade de conexão com o feminino através do diálogo. Feminino, é importante saber, nada tem a ver com a ideia de gênero (homem e mulher), mas com a qualidade do cuidado. Eu celebro que estejamos construindo com a Comunicação Não Violenta, um jeito de ser que coopera e que inclui.


Termino este texto com uma proposta: neste dia em que parabenizamos as mulheres, sem mesmo saber o porque, eu proponho que você se arrisque a investigar o feminino que existe em você: este olhar para o fluxo da vida.


Comece pelo fluxo de sua respiração e perceba que, para ele se completar, como é importante e imprescindível o movimento de acolher o ar e desapegar do ar. Prender o ar, prender a fala, prender o choro, pode nos fazer adoecer.


Veja se você consegue aplicar este mesmo fluxo em outros aspectos da vida. Por exemplo, ao estar diante de um conflito, ao invés de repetir a tendência de punição e submissão (fixar-se em algum comportamento), tente experimentar o fluxo: o que eu vejo (o que atravessa meu organismo tal como o ar que entra), o que eu sinto, como me nutre (isto apoia minha vida?), como eu devolvo (tal como a expiração em forma de pedidos). E do outro lado, como o outro vê, escuta, sente, se nutre ou não ao receber o meu pedido?


Se expandir o fluxo de dar e receber para as suas relações com as pessoas ainda for desafiador, fique com a prática da respiração e vá se nutrindo de cuidado com o seu próprio ser, com a sua presença.


Fico por aqui aberta a continuar este diálogo com você: de que outras formas podemos nos conectar com o ciclo feminino/nutritivo de dar e receber?


A você, um grande abraço!


Camila Marques é psicóloga, especialista em arteterapia e co-fundadora da Escola de Empatia. Mãe do Gustavo e investigadora de necessidades humanas. Estuda a Comunicação Não-Violenta desde 2014 e outras áreas do conhecimento como a Abordagem Centrada na Pessoa. Formada pelo Gaia Education: Design para Sustentabilidade.





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