Escuta empática: um guia para o Setembro Amarelo

September 14, 2018

 

Certa vez, em um curso de Comunicação Não-Violenta, uma pergunta inesperada foi feita pelo facilitador: "Quem já pensou em dar fim à própria vida?".

 

Era uma vivência na qual haviam outras perguntas. Andávamos pela sala e para aqueles em que a resposta fosse SIM, deveriam parar de andar e se manter onde estavam. Para as pessoas que a resposta fosse NÃO, continuavam a andar pela sala.

 

Os posicionamentos da vivência demonstravam ao grupo um mapa de vulnerabilidade.

 

"Quem está apaixonado?"

"Quem já recebeu apelidos pejorativos sobre a sua própria aparência?"

"Quem acha que se comunica com violência?"

 

"Quem já pensou em dar fim à própria vida?", foi uma pergunta que surpreendeu muitos dos que estavam ali. Alguns pararam, outros andaram mais devagar, ora olhando para o chão, ora olhando para os que estavam parados. O retrato que ficou, mostra uma realidade que parece ser inerente ao ser humano.

 

Parece comum, ao menos uma vez na vida, a experiência de desespero profundo e falta de esperança. Em momentos assim, para muitas pessoas, parece não haver outra saída, que não seja dar fim à própria vida. Porém, a pessoa que pensa em suicídio quer acabar com o sofrimento que no momento é insuportável, não com a vida.

 

Para alguns, possivelmente com o apoio de família, amigos e profissionais, os sentimentos e ideias se reorganizam. Para outros, o fim acaba por ser mesmo o suicídio. O que diferencia os dois casos? Será que podemos colaborar para que pessoas com depressão ou em situações de desespero tenham um pouco mais de esperança?

 

Sim, podemos colaborar! E esta é a aposta do Setembro Amarelo, uma campanha mundial de prevenção ao suicídio, iniciada no Brasil em 2015. Trata-se de uma iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Centro de Valorização da Vida (CVV).

 

Neste Guia Empático vou compartilhar algumas possibilidades que desenvolvemos em nosso curso de Escutatória, que podem ajudar você a desenvolver uma escuta empática e ativa, apoiando pessoas que estejam precisando de sua ajuda.

 

São quatro passos simples e maravilhosos:

 

1º: Olhe generosamente para a pessoa diante de você

2º Silencie seus julgamentos sobre o que é certo ou errado, seus valores e crenças

3º Escute com empatia

4º Comunique o que você compreendeu, com respeito e autenticidade

 

Vem comigo =)

 

1º: Olhe generosamente para a pessoa diante de você

 

Se você está diante de uma pessoa em situação de profunda tristeza e desesperança, este é o primeiro passo para estabelecer uma comunicação baseada em empatia e honestidade. Olhar e perceber a pessoa diante de você.

 

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” - Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.

 

Pode parecer óbvio, mas não é. Na maioria das vezes o que estamos fazendo é avaliando e rotulando as pessoas e não olhando-as generosamente. Olhar generosamente pressupõe desapegar daquilo que achamos já saber sobre o outro. É adotar a postura do não saber, similar à um pote vazio prestes a receber flores.

 

Desapegar dos rótulos "Ela está depressiva", "Coitado, ele está desesperado", "Está mesmo perdido...". Uma vez que depressiva, desesperado e perdido podem não dizer tudo ou nada sobre aquela pessoa.

 

Por isto, neste primeiro passo, apenas olhe e diga para você mesmo(a): "Eu não sei nada sobre esta pessoa. O que sei ainda é pouco, ou não é o bastante para compreende-la de verdade.".

 

2º: Silencie seus julgamentos sobre o que é certo ou errado, seus valores e crenças

 

Olhar generosamente é mesmo um pouco disto: silenciar os valores e crenças que moram dentro de você. É preciso saber que talvez a pessoa vá dizer coisas que você não concorda ou que podem parecer absurdas ao seu ponto de vista. Neste caso, verifique a sua intenção: caso a sua intenção seja realmente colaborar com a pessoa, guarde no bolso os seus parâmetros sobre o que é melhor ou pior para se fazer.

 

Silenciar internamente é o maior desafio, porém, é importante tomar cuidado com demasiadas falas. Talvez, tudo que a pessoa precise seja de sua escuta silenciosa. Talvez isso seja suficiente para que ela se sinta menos sozinha, afinal, tem alguém ali com quem ela pode compartilhar.

 

Neste passo, silenciar os seus julgamentos e valores aliado ao espaço que você dá pra o outro falar, pode propiciar abertura e confiança. Quem sabe você pode utilizar perguntas abertas e iniciais como: "Você quer me contar o que está acontecendo? Estou aqui para escutar você.".

 

3º: Escute com empatia

 

Agora que você estabeleceu uma conexão empática com a pessoa. Você pode escutá-la. Deixe que ela fale e tenha a intenção de compreender e não de dar uma resposta ou solução para o seu problema. Parta do princípio que talvez você não saiba da melhor opção e que ela vai dar conta.

 

A base para conseguirmos escutar uma pessoa sem interferir é a confiança. É importante confiar que ela tem o potencial de encontrar o seu melhor caminho, O psicólogo norte americano, Carl Rogers, chama isto de Tendência Atualizante. Segundo ele, toda pessoa tem o potencial de se auto regular e buscar os nutrientes necessários para a sua vida. Marshall Rosenberg, o psicólogo criador da Comunicação Não-Violenta, também acredita que o ser humano tem o potencial compassivo e que sempre estaremos agindo em prol de satisfazer as nossas necessidades.

 

Por isto, escute com confiança. Deixe que a pessoa tenha a vez da fala e demonstre que se importa com gestos e expressões faciais. Conecte-se. Você pode, inclusive, fazer perguntas breves e abertas para que ela continue falando. "E como você está se sentindo?", "O que é importante para você?".

 

Conselhos são, na realidade, reflexo da nossa vaidade, achamos que sabemos o melhor caminho a seguir. Se queremos oferecer a nossa perspectiva diante da situação, com a intenção genuína de colaborar com o outro, podemos perguntar "Você gostaria de saber do meu ponto de vista em relação a isto?".

 

 

4º Comunique o que você compreendeu, com respeito e autenticidade

 

Comunicar o que compreendeu com respeito e autenticidade é o último passo, porém, pode ser feito várias vezes durante a conversa.

 

Comunicar tem a ver com o processo de escuta ativa e tem dois objetivos importantes: demonstrar e checar o que você entendeu e ajudar a pessoa a se compreender melhor. Em decorrência do processo difícil que a pessoa está vivendo, ela pode estar desorganizada e confusa. Repetir para ela o que você compreendeu, com suas próprias palavras, pode ajuda-la a se compreender um pouco mais.

 

Este é um processo que exige prática, mas não se preocupe, a sua intenção de ajudar é o que é mais importante. Devemos sempre partir do princípio que talvez não tenhamos compreendido corretamente o que o outro disso (e queremos compreender), por isso a importância de checar. Vou dar um exemplo:

 

"Fulano, escutei você me dizer que está passando por um momento muito delicado em sua vida e não sabe bem como agir. Você parece ter algumas opções como (A) ou (B), mas parece precisar de mais segurança e clareza para fazer essa escolha. Foi isso mesmo que você disse?".

 

Quando digo "Foi isso mesmo que você disse?", ou "Compreendi você?" dou a chance para a pessoa completar ou esclarecer algo que não ficou bem entendido. A intenção aqui não é acertar e sim se conectar com a pessoa.

 

Escutando podemos salvar a vida de alguém

 

Eu acredito muito nisto.

 

Não da pra saber quando é a gota d´água, ou se aquela pessoa que diz que está "tudo bem", foi da boca pra fora e não está nada bem. Por isto, seria especial se você que está lendo este texto se propor a escutar.

 

Tente perguntar:

 

"Estou aqui com você, me conta o que tem passado?".

 

Você irá perceber que há sempre algo que importa dentro de uma pessoa. Sempre há algo que merece ser ouvido.

 

Vamos tornar todos os meses e não somente setembro amarelo.

 

 

 

Camila Marques é psicóloga, especialista em Arteterapia e co-criadora da Escola de Empatia. Há 7 anos realiza treinamentos sobre habilidades de empatia e comunicação. Estuda, vivencia e compartilha a Comunicação Não-Violenta (CNV).

 

 

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