"Um amor, mil casamentos": uma leitura sobre a escravidão emocional


A Netflix está se baseando no livro de Marshall Rosenberg (Comunicação Não-Violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais) para fazer seus filmes? Parece que sim - pelo menos é isso que parece ser no filme "Um amor, mil casamentos", do diretor Dean Craig. Neste texto, vamos ver o processo de escravidão emocional à libertação emocional acontecendo com o personagem principal, Jack (Sam Claflin, mesmo ator de "Como eu era antes de você").

Antes de continuar lendo este texto, indico que assista ao filme, pois podem haver alguns spoilers! O gênero do filme, creio que seja comédia romântica. Fiquei em dúvida, pois não é bem daqueles filmes que fazem você morrer de rir e chorar ao mesmo tempo. Mas, bem, é descrito como comédia romântica.

"Um amor, mil casamentos" é um refilmagem do filme francês Plan de Table, de 2012. Conta a história do casal Jack e Dina (Olivia Munn). São dois solteiros que se conhecem por intervenção da irmã do protagonista Jack e Dina acabam criando uma intensa conexão. O filme é rodeado de acaso, azar e sorte. Logo no início, na despedida do casal, um amigo de Jack interrompe o prometido beijo, de maneira, digamos, inconveniente (claro, julgamento meu e parece ser também do casal).

Tentando se livrar do amigo, Jack diz que já está de partida para pegar seu voo (bem, será que ele queria na verdade dizer que precisava de um tempo a sós com a garota?). Para seu azar, o amigo estava de carro e ofereceu uma carona. Obviamente frustrado, mas sem conseguir expressar seu sentimento, Jack aceita à carona e despede de Dina com um aperto de mão.

"O acaso pode ser bem inconveniente", diz um sábio.

Três anos depois, Jack e Dina ganham uma nova oportunidade, desta vez no casamento da irmã de Jack, Hayley (Eleanor Tomlinson).

Jack continua ainda escravo de suas emoções. Um adentro aqui: Marshall Rosenberg, esquematizador da Comunicação Não-Violenta, diz que a maioria de nós parece passar por três estágios na maneira como nos relacionamos com os outros. São eles:

1) Escravidão emocional: quando "vemos a nós mesmos como responsáveis pelos sentimentos dos outros" e consequentemente, nos sentimos culpados ou envergonhados por julgarmos que nossas ações podem ser a causa para sentimentos de infelicidade, frustração ou raiva em outras pessoas.

2) Ranzinza: é um estágio intermediário no qual sentimos raiva quando descobrimos o quanto agimos em prol do outro, sem nos atentar as nossas próprias necessidades. Não queremos mais ser responsáveis pelos sentimentos dos outros e agimos de modo ranzinza, sem considerar os outros.

3) Libertação emocional: nesta etapa assumimos a responsabilidade por nossos sentimentos e ações. Além disso também agimos com empatia aos sentimentos e ações dos outros, mas sabemos que não somos responsáveis por eles.

Continuando... o protagonista, ainda não conseguindo expressar suas emoções com responsabilidade, assume diversas situações indesejadas e incômodas no casamento da irmã. Jack sempre fazendo algo pelo outro, parece esquecer de fazer por si mesmo. É o protagonista mais coadjuvante que já vi.

Ao contrário de Jack, o Dama de Honra Bryan (Joel Fry) - sim, a dama de honra, na verdade, é um amigo da noiva -, tem interessantes habilidades em fazer pedidos. Ele já começa pedindo para chama-lo de Homem de Honra e mesmo recebendo um "não" de Hayley, continua, não se sentindo desanimado diante do segundo não.

No filme também tem o personagem Sidney (Tim Key), que parece um escocês, mas só estava mesmo usando um kilt, traje tradicional de homens e meninos gaélicos nas Terras Altas escocesas. O "escocês" parece ser um bônus no filme sobre os bloqueios da empatia. Ele parece por em teste todas as formas de obstáculos de empatia descritos por Marshall Rosenberg, Como consequência disso, ele está nas cenas mais indiscretas e constrangedoras do filme.

O drama, ou comédia romântica, começa a esquentar quando um rapaz chega ao casamento sem ser convidado. Ele entra no casamento após usar drogas e quando a noiva Hayley o vê por lá, parece ficar em espantada e preocupada.

O personagem Marc (Jack Farthing) guarda um segredo da noiva e pode arruinar o casamento. Hayley dá então a missão de resolver o problema a quem não poderia recusar, seu irmão Jack. Ela propõe a Jack que ele coloque seu remédio para dormir na bebida de Marc. Na verdade não propõe e sim exige, pois parece não haver outra opção a ser negociada e nem a possibilidade do "não". Jack até tenta negociar a estratégia, mas Hayley se mantem amorasamente inflexível.

Por não conseguir se libertar da escravidão emocional, o protagonista mais uma vez agiu para agradar a irmã. Ele coloca o remédio no copo destinado ao rapaz.

Como disse, este é um filme de muitos acasos e por acaso algumas crianças passam brincando pela mesa e trocam as taças de lugar, tornando quase impossível saber quem tomou o sonífero. Obviamente que não seria para Marc, não assim de primeira. O filme rebobina a cena várias vezes para experimentar o que aconteceria se a cada pessoa da mesa tomasse o remédio.

Jack, nessa confusão toda, fica na corrida para resolver o problema da irmã. Lembram de Dina? Então, seu romance com ela vai caindo por aguá abaixo por ele não dar atenção às necessidades compartilhadas pelos dois.

O filme volva e revolta com o suspense de quem irá tomar o remédio.

Será que o escocês aprendeu a ouvir? Será que a noiva aprende a fazer pedidos e não exigências? O que posso dizer é que Jack aprende, no final das contas, a expressar as suas necessidades em relação a amada. Mesmo que ainda de forma ranzinza.

Porém, como diria Marshall Rosenberg, sabemos que é uma questão de tempo para que ele progrida para a libertação emocional e leve em conta, alem de suas necessidades, as necessidades dos outros também.

Camila Marques é psicóloga, especialista em arteterapia e co-fundadora da Escola de Empatia. Mãe do Gustavo e investigadora de necessidades humanas. Estuda a Comunicação Não-Violenta desde 2014 e outras áreas do conhecimento como a Abordagem Centrada na Pessoa. Formada pelo Gaia Education: Design para Sustentabilidade

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