Quem tem razão?

June 20, 2018

 

 

Quem tem razão? Você conhece esse jogo?

 

Passamos a maior parte da vida a jogar o jogo da razão. Desde a infância somos educados a estar certos, chegar primeiro, ultrapassar o colega. Aprendemos que o divertido é ganhar e que mais divertido ainda é quando o outro perde. Não é assim no futebol?

 

Mas nos enganamos, pois no jogo de Quem tem razão, todos perdem.

 

Neste texto vamos refletir sobre as duas consequências mais tortuosas que envolve o jogo de Quem tem razão: a punição e a recompensa. Vamos conhecer também um outro jogo que nos é natural na vida, porém, por alguns motivos, esquecemos ou deixamos de praticar: é o jogo de fazer a vida maravilhosa!

 

Você vem?

 

 

Sobre as punições e recompensas

 

Marshall Rosenberg, o criador da Comunicação Não-Violenta, nos proporciona a reflexão sobre o paradigma convencional ao qual vivemos nossas vidas: estamos habituados à visão moralista sobre o que é certo e errado, bom e ruim, feio e bonito. Estes parâmetros são definidos através de uma visão dominante e pressupõe duas únicas consequências: um perde e um ganha. Quem perde terá de ser punido e quem ganha é recompensado. São dois lados de uma mesma moeda que somente induz as pessoas a sentirem culpa e vergonha.

 

Estes processos corretivos passaram a ser adotados quando acreditamos que o ser humano é inatamente ruim e egoísta. Sendo egoísta e ruim, o ser humano somente fará o que é "certo" caso seja recompensado e somente deixará de fazer o que é "errado" caso seja punido. Começamos então a desenvolver um modelo de linguagem violenta, que de tão enraizada, parece ser cada vez mais fácil de praticar.

 

Alias, o que se faz em culturas de dominação é tornar a violência agradável e corriqueira. Assistimos aos filmes e torcemos para que os heróis matem os bandidos; assistimos aos jornais que confirmam a violência cotidiana.

 

Embora pudéssemos fazer a vida maravilhosa a cada instante, acostumamos a jogar o jogo de quem tem razão. Crescemos assim e aprimoramos um dialeto característico, chamado Linguagem do Chacal.

 

 

Linguagem do Chacal

 

A linguagem do Chacal é uma linguagem moralista, que somente reproduz o paradigma ao qual estamos conhecendo aqui. Marshall chama este modelo de linguagem de Comunicação Alienante da Vida - é a comunicação que nos aliena (nos afasta) de nós mesmos e dos outros. Abaixo vou citar exemplos dessa comunicação:

 

1 - Julgamentos:

O primeiro exemplo da comunicação alienante é o julgamento. Habituados à visão de certo e errado, é comum dizermos "Você não deveria fazer desse jeito!", "Você está errado!", "É muito feio agir assim.".

 

Comumente, julgamos aquilo que é diferente e estranho ao nosso modo de ser e ver o mundo. É um modo de dizer "Olha só, eu estou certo e você está errado" e isto acaba sendo bem prejudicial para todos os envolvidos: ambos perdem com a desconexão e sentimentos que isto provoca.

 

Marshall esclarece que é impossível viver uma vida sem julgamentos. Porém, em uma comunicação, temos mais chances de conectarmos com o outro quando conseguimos separar aquilo que pensamos (julgamentos), daquilo que observamos, sentimos e precisamos.

 

2 - Comparações:

Outro exemplo de linguagem Chacal são as comparações. Eu sei, fazemos isso o tempo todo! "Olha como o seu irmão é inteligente!" é um exemplo clássico. Outra forma de comparar é o típico "Comigo é pior!", logo quando o outro conta um problema.

 

Posso citar vários outros exemplos de comparações e na maioria das vezes estamos aplicando algum processo corretivo. Nas entrelinhas dizemos como o outro deveria ser ou fazer; ou que o que disse é bobagem, existem coisas piores,

 

As comparações também nos afasta uns dos outros e o aprendizado que isto passa é um modo de ser cada vez mais inautêntico, regido pelo olhar do outro.

 

3- Negação de responsabilidade

A negação de responsabilidade é também uma linguagem Chacal muito comum e muito perigosa. Somos especialistas nela: "Eu tive que fazer assim" e "Eu não tive escolha" são exemplos de negar a responsabilidade.

 

O problema é que a negação de responsabilidade é tão comum que algumas pessoas realmente acreditam que teve que fazer tal coisas e não que escolheu fazer tal coisa. Acreditamos que, ao falar assim, estaremos à salvo da punição. Afinal, "não vou à sua festa de aniversário porque tenho que cuidar do meu filho". Acreditamos que seremos punidos ao atender às nossas próprias necessidades e por isto não dizemos: "Não vou à sua festa de aniversário porque preciso descansar.".

 

Outra forma de negar a responsabilidade é culpando aos outros pelos nossos sentimentos: "você me deixa com raiva", "estou triste porque você fez isto comigo". Um aprendizado valioso da Comunicação Não-Violenta é a tomada de responsabilidade pelos próprios sentimentos - nossos sentimentos não são causados pelo outro, eles são frutos de nós mesmos quando nossas necessidades são satisfeitas ou não.

 

4 - Exigências

Por fim, Marshall nos conscientiza de um outro modelo de linguagem Chacal, as exigências.

 

A Comunicação Não-Violenta é dividida em quatro componentes: observação, sentimento, necessidade e pedido, certo? Na verdade, estes componentes não devem ser vistos como técnicas, mas sim como o fluxo da vida. Quando observo e me conscientizo do mundo a minha volta, quais os sentimentos estão vivo em mim? O que preciso para tornar a vida maravilhosa? Como posso fazer um pedido que enriqueça minha vida?

 

É o fluxo da vida, que não necessariamente precisa ter esta ordem. Mas quando temos a intenção de conectar com nós mesmos e com o outro, este rio flui e nutre.

 

Sobre as exigências, há algo que precisamos saber: estamos o tempo todo fazendo pedidos, sejam eles implícitos ou explícitos. Isto quer dizer que nossas ações são estratégias que utilizamos para atender as nossas necessidades. E, então, entra em cena outra perigosa linguagem Chacal: as exigências.

 

As exigências acontecem quando não consideramos a escolha e necessidade do outro; quando fazemos com que o outro sinta culpa ou vergonha diante da sua escolha e o penalizamos por isto. O grande problema é que, muitas vezes, as exigências vem disfarçadas. Falamos com jeitinho: "Faça isso por mim, só dessa vez!", "Empresta seu brinquedo pro seu amigo, você é um bom menino!". Mais uma vez estamos desconsiderando a escolha do outro e o seu fluxo autentico de vida.

 

 

Julgamentos, comparações, negação de responsabilidade e exigências estão mais presentes em nossas comunicações do que imaginamos. Estes modelos de linguagem são também chamadas de linguagem estática, por desconsiderar o fluxo e dinamismo da vida e pressupor generalizações.

 

Contudo, dentro de nós existe o potencial de olhar para o mundo de outra forma: considerando o quão dinâmico ele é! Fazer o mundo e as pessoas livres de nossas opiniões e parâmetros sobre o que é certo e errado é respeitar e acolher as suas necessidades. Esta é a Linguagem da Girafa =)

 

 

Linguagem da Girafa

 

Esta é uma linguagem diferente da que utilizamos no piloto automático ou quando queremos ganhar o jogo. A girafa tem o maior coração do reino animal. Por ter um pescoço longo, seu coração precisa ser grande e forte para conseguir bombear sangue até o cérebro: daí surge a girafa como o símbolo da empatia. Com o coração tão grande assim, a girafa vive um jogo natural e muito mais divertido: Dar de Coração.

 

Dar de coração, ou Dar natural, é o que faz a vida maravilhosa. Quando escutamos à nós mesmos e aos outros, quando nos desprendemos dos conceitos de obrigação, respeitamos o fluxo de dar e receber que flui naturalmente de dentro de nós.

 

 

 Camila Marques é psicóloga, especialista em Arteterapia e co-criadora da Escola de Empatia. Há 7 anos realiza treinamentos sobre habilidades de empatia e comunicação. Estuda, vivencia e compartilha a Comunicação Não-Violenta (CNV). 

 

 

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