Tomada de perspectiva: o primeiro passo para a empatia

April 16, 2018

 

 

Disse o poeta Henry David Thoreau (1817-1862): "Poderia haver maior milagre do que olharmos com os olhos do outro por um instante?"

 

Sobre isto o psicólogo norte americano Carl Rogers (1902-1987) também contribuiu: "Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele."

 

E a pesquisadora Brené Brown em seu vídeo O Poder da Empatia levantou quatro qualidades importantes da empatia: (1) entendimento de perspectiva, (2) reconhecimento da perspectiva do outro como verdade, (3) não julga-las, e (4) reconhecer emoção em outras pessoas, comunicando isso.

 

Poderíamos ter muitos outros exemplos que nos esclarecem uma qualidade primordial para a empatia: a tomada de perspectiva.

 

Por isto, neste texto, vou abordar:

 

1) O que é perspectiva no ponto de vista da empatia.

2) A importância de considerar a perspectiva do outro.

3) Maneiras de comunicar e checar a compreensão da perspectiva do outro.

4) Por último, mas não menos importante, reconhecendo e comunicando a própria perspectiva com empatia.

 

Lembrando que neste mês teremos uma Aula Aberta na Escola de Empatia para conversarmos e praticarmos sobre o tema PERSPECTIVA. Você é nosso convidado!

 

Então vamos ao texto =)

 

 

O que é perspectiva no ponto de vista da empatia?

 

Popularmente dizemos que empatia é como "calçar os pés nos sapatos do outro". Por um lado, esta expressão pode ajudar a compreender o que é a empatia: a capacidade de sentir, compreender e comunicar as emoções, pensamentos e ações do outro. Por outro lado a expressão pode gerar uma certa confusão, ou mesmo dúvidas acerca da capacidade de empatia.

 

Para explicar isto vou me basear em uma importante lei da física, a chamada Lei de Newton, que ensina que "dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo".

 

Pensando na lógica das dimensões espaço-tempo, duas pessoas nunca terão uma mesma experiência diante dos fatos. Experiência e fato são distintos: fato é o que acontece na realidade e é comum para todos; experiência é como cada pessoa percebe e vivencia os fatos. Desta forma, mesmo que eu e você passemos pelas mesmas situações (fatos) ao longo da vida, ainda assim teremos significados e experiências diferentes, pois estaremos sempre olhando por perspectivas diferentes.

 

Assim, a perspectiva ou ponto de vista, é o modo como cada pessoa experiência e percebe o mundo. A perspectiva é construída durante toda a nossa vida, desde a infância.

 

Em 1970, o psicólogo Robert Selman trouxe uma grande influencia sobre a noção e tomada de perspectiva, apresentando um modelo de 5 estágios de desenvolvimento.

 

Basicamente, passamos pelos estágios (nível 0) egocêntrico: a perspectiva da criança predomina como única visão de mundo para ela; (nível 1) tomada de perspectiva: a criança percebe que duas pessoas podem ter diferentes perspectivas em relação a um mesmo objeto ou situação; (nível 2) tomada de perspectiva recíproca: quando a criança percebe que outras pessoas também podem compreender a sua perspectiva, gerando assim um processo de auto reflexão e a capacidade de abrir mão da própria perspectiva e introjetar a perspectiva do outro; (nível 3) tomada de perspectiva mútua: onde a criança passa a ter a habilidade de falar em terceira pessoa, assumindo a perspectiva de um grupo e, por último (nível 4) tomada de perspectiva sócio-simbólica, que é quando, já adolescente, entende que sua perspectiva pode ser influenciada por um conjunto de valores sociais.

 

Podemos perceber a que perspectiva, ou tomada de perspectiva se desenvolve em diferentes estágios e está em constante relação com as pessoas e ambiente que nos cerca. Quando passamos por estes estágios temos, então, a habilidade da empatia. Em outras palavras, a habilidade de reconhecer, considerar, aceitar e comunicar a perspectiva do outro.

 

Neste ponto de vista, a falta da empatia se assemelha à postura egocêntrica que teria uma criança. Claro, não seremos empáticos o tempo todo. Não seria, inclusive, saudável para nós. Existem momentos em que precisamos voltar para a própria caverna, entende? São momentos em que estamos em conflito com o nossa própria visão de mundo e  nossos próprios valores e que pede de nós uma pausa, um auto cuidado.

 

Porém, outras vezes é importante considerar a perspectiva das outras pessoas.

 

 

A importância de considerar a perspectiva do outro:

 

Imagine só, somos mais de 7 bilhões de pessoas no planeta terra e vivemos em constante relação. Cada um de nós tem uma perspectiva diferente. Somos pessoas únicas. O que seria da nossa vida em sociedade sem a empatia? Um caos, não acha?

 

Agora imagine um cenário bastante atual: nossas ideias estão cada vez mais compartilhadas. Estamos conectados, literalmente, através das redes sociais, sites, notícias. Além do advento da era digital, temos também maior facilidade em transitar entre diferentes lugares, dos mais pertos aos mais distantes. Diante deste intercambio de ideias e costumes, se de fato sairmos das nossas bolhas, teremos um enorme acesso à perspectivas diferentes das nossas.

 

Infelizmente estamos vivenciando, a partir disto, uma série de atitudes de preconceito e desrespeito ao próximo. Eu me pergunto: onde vamos parar?

 

Adotar uma postura de empatia não é abrir mão da sua visão de mundo, mas aceitar e compreender outras formas de viver. Aceitar o jeito do outro não é concordar com ele, mas sim compreender que, diante das experiências de vida que ele teve,  foi daquele modo que ele poderia agir. É entender que, se estivesse de fato no lugar dele, você faria a mesma coisa.

 

E então entendemos que "colocar os pés nos sapatos do outro" não é a melhor expressão para a empatia. Você pode calçar o mesmo número, mas nunca, de fato, irá caminhar pelos mesmos lugares, do mesmo jeito. Se o sapato fica apertado para você, você irá se distanciar ainda mais da experiência em si vivida pelo outro.

 

Na empatia, você pode compreender os caminhos do outro, compreender as razões dos sapatos desgastados ou não, compreender as emoções e sentimentos que a pessoa vivencia ao caminhar em seu caminho. Você pode até mesmo sentir um sentimento similar, em decorrência dos nossos neurônios espelhos (ainda vamos falar sobre isto no blog). Mas não é possível ser o outro. A empatia é uma via de mão dupla: você sendo você mesmo, pode compreender o mundo do outro, que é ele mesmo.

 

Carl Rogers trouxe o termo compreensão empática e disse ser: “uma compreensão aguda e empática do mundo do outro, como se fosse visto do interior. Captar o mundo particular do outro como se fosse o seu próprio mundo, mas sem nunca esquecer esse caráter de “como se” – é isso a empatia” (ROGERS, 1977: 256).

 

Cada pessoa é um planeta. Se você é a Terra, nunca poderá ser Marte, mas poderá, com o devido preparo, viajar para lá e conhecer. Na empatia, chamamos este "preparo" de comunicação. Somente comunicando e checando a nossa compreensão do outro, podemos realmente conhecer o seu mundo.

 

 

3) Maneiras de comunicar e checar a compreensão da perspectiva do outro:

 

O "preparo" a qual chamei de comunicação, é um processo que se dá entre duas ou mais pessoas, no qual cada pessoa colabora com o seu ponto de vista de uma determinada situação ou assunto. A empatia é um processo de comunicação, no qual pelo menos uma pessoa tem a intenção de compreender o ponto de vista do outro.

 

Neste processo de compreensão é essencial que se tenha algumas atitudes, as quais chamamos (na Escola de Empatia) de atitudes empáticas. São elas:

 

1) Escolher a empatia

2) Olhar e perceber o outro

3) Escutar atentamente

4) Não julgar

5) Comunicar o que compreender

6) Checar

 

Baseado nessas atitudes a Escola de Empatia construiu o Ciclo da Empatia. Que é uma vivencia onde os participantes podem exercitar as atitudes empáticas. O Ciclo faz parte do curso de Escutatória <3

 

Bom, voltando aqui. O processo de comunicação empática começa na escolha (não podemos obrigar ninguém a ser empático), passa pela percepção do outro, pela escuta atenta, pela aceitação e não julgamento e, por fim, pela comunicação da compreensão e checagem.

 

Na prática, ao escutar alguém, a intenção da pessoa que oferece a empatia é demonstrar o quanto compreende e o quanto se importa. Podemos fazer isto através do parafrasear, ou seja, repetir com as suas palavras aquilo que o outro falou.

 

Pense em uma situação em que uma pessoa te procura para desabafar, em que alguém está precisando falar sobre os seus sentimentos, em que uma pessoa está confusa ou mesmo com raiva e frustrada. Ser empático com estas pessoas pode facilitar o seu processo.

 

Imagine que esta pessoa fale com você varias coisas e parece que, ela mesmo, não está compreendendo bem a situação que vive. Quando você devolve para ela o que ela acabou de falar, em outras palavras, é como se você colocasse um espelho em sua frente e dissesse "Olha, é assim que você se sente?". Do outro lado a pessoa provavelmente vai sentir uma imensa gratidão, uma sensação de alívio. "Ao menos ele me compreende!".

 

No livro “Felicidade: um Trabalho Interior”, John Powell apresenta a necessidade humana por uma compreensão verdadeira assim:

 

“A condição humana tem sido comparada à situação de uma pessoa presa num poço profundo e seco. Seus pedidos de socorro ficam sem resposta; parecem levados para longe pelo vento que sopra lá fora. A esperança se esvai, um pouco cada dia; quando parece agonizar, uma voz soa do alto do poço: “Nós sabemos que você está aí. Estamos chegando com socorro para salvar você.”

 

Há uma explosão de alegria no coração da pessoa presa. “Graças a Deus! Finalmente alguém sabe que estou aqui.”

 

O mesmo acontece nos processos de comunicação verdadeira. A pessoa que se abre à outra e é ouvida, sente a mesma sensação de alívio e alegria. “Graças a Deus! Finalmente alguém sabe como me sinto.”

 

Percebe como a empatia é valiosa para quem precisa? E afinal, quem não precisa? Todos nós precisamos ser compreendidos e outra forma de satisfazer esta necessidade é quando você mesmo comunica o seu ponto de vista de modo empático.

 

 

Reconhecendo e comunicando a própria perspectiva com empatia:

 

Termino este texto demonstrando um pouco sobre a importância de reconhecer e comunicar a própria perspectiva.

 

Sabemos que ser compreendido é uma necessidade humana importante, porém, nem sempre recebemos isto espontaneamente das pessoas que convivemos. Mas não é por isto precisamos lavar as nossas mãos e nos contentar com a não compreensão do outro. Podemos nós mesmos comunicar com empatia o nosso ponto de vista. O primeiro passo para isto é reconhecê-lo. Fazemos isto voltando para dentro da nossa "caverna", como escrito no início deste texto.

 

Voltar para dentro de si mesmo é muito importante. Perguntar para si mesmo "o que eu penso sobre isto?", "o que eu sinto quando isto acontece?", "o que eu preciso para me sentir bem?" é um modo que temos de reconhecer a nossa própria visão de mundo.

 

Feito isto, podemos comunicar para o outro, empaticamente, como nos sentimos em determinada situação e o que queremos. Uma comunicação empática não quer estipular culpados e nem fazer julgamentos. Quando aprendemos a linguagem da empatia, tudo que queremos é comunicar o que se passa em nosso coração.

 

Quer um exemplo?

 

Imagine que você tem um amigo que chegou atrasado em seus últimos 4 encontros. Hoje vocês marcaram um café às 15 horas da tarde e às 16 horas ele ainda não havia chegado.

 

Na linguagem da culpa diríamos a este amigo: "Você não se importa comigo, você não tem comprometimento, sempre chega atrasado aos nossos encontros!".

 

Na linguagem da empatia a gente pode dizer "Você chegou atrasado nos nossos últimos encontros, compreendo que há um motivo para isto. Mas quando acontece isto eu me sinto chateada, porque para mim a pontualidade é importante. Você pode me enviar uma mensagem ou me ligar quando for se atrasar aos nossos próximos encontros?".

 

Qual mensagem você gostaria de receber se você fosse o amigo que "sempre" atrasa? No fundo, todos nós queremos compreensão!

 

Que tal se você vier participar da nossa aula sobre Perspectiva? Será muito rico ter conosco a sua visão de mundo!

 

Tem algo a contribuir? Deixe nos comentários e nos comunicamos =)

 

 

 

 

Camila Marques é psicóloga, especialista em Arteterapia e co-criadora da Escola de Empatia. Há 7 anos realiza treinamentos sobre habilidades de empatia e comunicação. Estuda, vivencia e compartilha a Comunicação Não-Violenta (CNV).

 

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