“É tudo pra ontem” e a poesia de Emicida



Estou convicta de que essa pressa não dará conta de escrever um texto sobre o filme de Emicida. Mas ainda assim estou aqui, com emoções na pele, para resgatar algumas poesias.


Não, este texto não é para fazer algum tipo de leitura sobre “É tudo pra ontem”, pois ainda preciso de muito para continuar desconstruindo tudo que os livros didáticos me contaram. Nós estamos tendo a oportunidade de compreender tão recentemente que a nossa história é outra. Alguém veio aqui e disse sobre uma tal descoberta de nosso país e a partir de então tudo o que veio depois viemos acreditando.


Somos um povo de alma colonizada, que certamente tem e terá dificuldade de olhar para o outro com empatia e compaixão; que certamente é e ainda será mais capaz de colonizar o outro do que de fato estar com o outro. Em seu sentido figurado, colonizar: “tomar conta de; propagar-se; invadir: algumas plantas colonizam o jardim inteiro.”. Até quando?


Colonizamos o outro, o invadimos com nossas histórias e preconceitos, da mesma forma que fizeram com o nosso país. Assim nasce as nossas separações e insanidades. É tudo pra ontem. Precisamos reinaugurar as coisas, precisamos reaprender e aprender de novo com o outro sobre ele mesmo. Precisamos de empatia.


“Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”.


Emicida reflete sobre este ditado Iorubá no tease do filme dizendo: “ele é a melhor forma de resumir o que eu tento fazer. Eu não sinto que eu vim, eu sinto que eu voltei. E que de alguma forma meus sonhos e minhas lutas começaram muito tempo antes da minha chegada.”


A arte sintetiza o que a realidade não dá conta de dizer. E assim faz o rapper através da música. Pois bem, este texto é sobre a poesia de Emicida.


Lá nos créditos do filme tem um presente em forma de história. Uma história sobre a volta do Criador à terra, curioso pra ver como estariam suas criaturas. Uma linda história de Aílton Krenak, narrada por Gilberto Gil ao final da música “É tudo pra ontem”.



“O Criador deixou a humanidade aqui na Terra E foi pra algum outro lugar do cosmos Um dia, ele se lembrou de nós e disse Ah, eu deixei minhas criaturas lá na Terra Preciso ver o que elas se tornaram


Mas, enquanto fazia esse movimento incrível de vir até aqui nos ver, ele pensou E se eles tiverem se tornado algo pior do que eu posso conceber? O melhor seria não ter um encontro pessoal com eles Vou fazer o seguinte, vou me transformar em uma outra criatura Para ver as minhas criaturas


Ele se transformou num tamanduá e saiu pela campina Em certo momento, um grupo de caçadores, munidos de bordunas e laços Se encostaram numa paisagem, avançaram sobre ele, o prenderam E levaram pro acampamento com a intenção óbvia de comê-lo


Duas crianças gêmeas, que observavam a cena Evitaram que ele fosse levado para a fogueira Ele então se revelou para os meninos Que antes que os adultos descobrissem, acobertaram a sua fuga Do lado de uma colina, os meninos gritaram Avô, avô, que você achou da gente, das suas criaturas? E Deus respondeu: Mais ou menos!”



E então em meio a um ano todo só de sexta-feira trezeSerá tudo em vão? Banal? Sem razão? Seria... Sim seria, se não fosse o amor”. E fazendo justiça à língua falada, à arte que mora no cotidiano, Emicida canta que “tudo que nóis tem é nóis”. A arte resgata a humanidade.


Acho, pensando aqui comigo, que posso até me considerar uma garota de sorte. Afinal, tenho pensado que há uma energia divina que transcende e nos coloca assim lado a lado, ainda que distantes. Me sinto menos só quando nos juntamos para dizer que a paz é pra ontem.


“E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado E assim já não posso sofrer no ano passado”


Mas para isto precisamos reinventar o passado, desfazer as coisas, descontar as mentiras, desengolir os choros. E caminhar, pois não para por aqui. “A música é só uma semente.”


O filme “É tudo pra ontem” pode ser assistido no catálogo da Netflix. Dirigido por Fred Ouro Preto e produzido por Evandro Fióti, co-criador da Laboratório Fantasma, acompanha o show de Emicida no Theatro Municipal de São Paulo em 2019, percorrendo a história da cultura negra no Brasil ao longo dos últimos 100 anos.


“Viver é partir, voltar e repartir (é isso)”.




Camila Marques é psicóloga, especialista em arteterapia e co-fundadora da Escola de Empatia. Mãe do Gustavo e investigadora de necessidades humanas. Estuda a Comunicação Não-Violenta desde 2014 e outras áreas do conhecimento como a Abordagem Centrada na Pessoa. Formada pelo Gaia Education: Design para Sustentabilidade.

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